QUANDO O GESTOR ADOECE A ESCOLA: A FALTA DE EMPATIA QUE ESTÁ ADOECENDO AS EQUIPES
Falar sobre gestão escolar é falar, antes de tudo, sobre pessoas. Uma escola não é formada apenas por salas de aula, documentos, reuniões, metas, avaliações e relatórios. Ela é construída diariamente por professores, funcionários, alunos, famílias e gestores que precisam caminhar juntos para que a educação aconteça de verdade. Quando essa relação se perde e a gestão passa a enxergar a equipe apenas como parte de um sistema que precisa cumprir ordens, a escola começa a adoecer silenciosamente.
O gestor escolar possui responsabilidades importantes e precisa cumprir normas, orientações, prazos e determinações do sistema educacional. No entanto, cumprir uma determinação não significa deixar de enxergar as pessoas que serão atingidas por ela. O gestor que simplesmente repassa todas as cobranças para sua equipe, sem ouvir, dialogar ou procurar alternativas, acaba se tornando apenas um representante da burocracia dentro da escola. E quando isso acontece, o profissional que está na ponta começa a sentir que não possui mais alguém para defendê-lo.
Durante oito anos, vivi a gestão escolar e conheci de perto as dificuldades, as cobranças e as responsabilidades que fazem parte dessa função. Sei que dirigir uma escola não é simples. Existem conflitos, problemas com alunos, famílias, professores, funcionários e também uma enorme pressão vinda de instâncias superiores. Entretanto, mesmo diante de todas essas dificuldades, sempre acreditei que um gestor não pode esquecer que, antes de qualquer função ou cargo, existe uma equipe formada por seres humanos.
Durante minha trajetória na gestão, lutei muito pela escola e pelas pessoas que trabalhavam comigo. Procurei defender minha equipe, ouvir suas dificuldades e buscar soluções para os problemas que surgiam. Nunca precisei puxar o saco de ninguém para fazer aquilo que acreditava ser correto. Não fiz da gestão um instrumento para agradar pessoas ou conquistar benefícios pessoais. Muitas vezes escolhi defender minha equipe, mesmo sabendo que aquela decisão poderia me trazer consequências.
Hoje, olhando para trás, reconheço que algumas escolhas tiveram um preço. Talvez eu pudesse ter escolhido o caminho mais fácil, o silêncio conveniente ou simplesmente ter obedecido e transferido as cobranças para os outros. Mas não foi isso que fiz. Sempre entendi que liderar também significa assumir responsabilidades e, principalmente, proteger aqueles que trabalham ao nosso lado quando eles precisam de apoio.
O problema é que nem todo gestor pensa dessa maneira. Existem profissionais que, depois que assumem uma função de liderança, parecem esquecer de onde vieram. Esquecem que um dia também estiveram em uma sala de aula, enfrentaram dificuldades, tiveram problemas, precisaram de compreensão e também esperaram que alguém os ouvisse. Quando chegam à gestão, passam a enxergar os colegas de outra maneira e acabam se aproximando mais do sistema do que das pessoas que deveriam liderar.
É nesse momento que a falta de empatia começa a destruir uma equipe. O professor deixa de ser ouvido, o funcionário deixa de se sentir valorizado e as pessoas começam a trabalhar apenas para cumprir suas obrigações. A criatividade desaparece, a participação diminui e o sentimento de pertencimento vai sendo substituído pela frustração. Aos poucos, profissionais que tinham vontade de contribuir passam a pensar apenas em terminar o expediente e ir embora.
Não podemos ignorar que o ambiente de trabalho também influencia a saúde emocional das pessoas. Uma cobrança constante, a falta de reconhecimento, a ausência de diálogo, a exposição diante dos colegas, a sensação de injustiça e a falta de apoio podem transformar o cotidiano escolar em um ambiente extremamente desgastante. Quando isso se repete durante meses ou anos, o profissional pode perder a motivação e começar a apresentar sinais de esgotamento.
Por isso, quando falamos sobre o adoecimento dos profissionais da educação, precisamos olhar para todos os lados. Não podemos colocar toda a culpa no professor, como se ele fosse simplesmente incapaz de lidar com as dificuldades da profissão. Também não podemos atribuir todos os problemas ao sistema. Precisamos discutir o papel dos gestores, porque a forma como uma liderança conduz uma equipe pode fazer uma enorme diferença na vida das pessoas.
Um bom gestor não precisa concordar com tudo o que sua equipe diz, assim como não precisa aceitar todos os pedidos. Liderar também significa tomar decisões difíceis. A diferença está na maneira como essas decisões são tomadas e comunicadas. É possível cobrar sem humilhar, corrigir sem destruir, orientar sem ameaçar e exigir responsabilidade sem retirar a dignidade do profissional.
A verdadeira liderança aparece principalmente nos momentos difíceis. Quando tudo está funcionando bem, é fácil administrar. O grande desafio surge quando existe um problema, quando a equipe está cansada, quando alguém precisa de ajuda ou quando uma determinação do sistema entra em conflito com a realidade da escola. É nesses momentos que descobrimos se estamos diante de um chefe preocupado apenas com resultados ou de um líder verdadeiramente comprometido com as pessoas.
Uma escola não pertence ao diretor. O diretor está gestor por determinado período, assim como outros profissionais ocupam suas funções. O cargo passa, mas a maneira como tratamos as pessoas deixa marcas. Um professor pode esquecer muitas reuniões e documentos ao longo dos anos, mas provavelmente jamais esquecerá o gestor que o respeitou, que acreditou nele e que esteve ao seu lado quando precisou.
Também não podemos esquecer que o gestor pode deixar marcas negativas. Palavras, atitudes, injustiças e decisões tomadas sem diálogo podem permanecer na memória de um profissional por muitos anos. Por isso, quem ocupa uma função de liderança precisa compreender que sua responsabilidade vai muito além de assinar documentos ou cumprir determinações. Ele está lidando diariamente com pessoas que possuem histórias, famílias, dificuldades, sonhos e limites.
Eu acredito que precisamos recuperar a humanidade dentro das nossas escolas. Precisamos construir ambientes onde o professor possa falar sem medo, onde os funcionários sejam respeitados, onde as dificuldades possam ser discutidas e onde a cobrança venha acompanhada de orientação e apoio. Precisamos compreender que uma equipe valorizada trabalha com mais disposição, participa mais e desenvolve um sentimento muito maior de compromisso com a instituição.
Depois de tantos anos na educação e depois de oito anos vivenciando a gestão escolar, tenho uma certeza: ninguém constrói uma escola sozinho. O diretor precisa da equipe, a equipe precisa do diretor, os professores precisam dos alunos e todos precisam das famílias e das políticas públicas adequadas. Quando cada um entende que possui uma responsabilidade dentro desse processo, a escola cresce. Quando um tenta se colocar acima dos outros, todos perdem.
Talvez eu esteja pagando hoje um preço por algumas escolhas que fiz no passado. Talvez defender pessoas, enfrentar situações e não escolher o caminho da conveniência tenha trazido consequências para minha própria trajetória. Mesmo assim, não me arrependo de ter defendido minha equipe. Eu poderia perder posições, reconhecimento ou oportunidades, mas não queria perder aquilo que considero mais importante: minha consciência.
A educação brasileira já enfrenta desafios enormes. Temos problemas estruturais, dificuldades de aprendizagem, desigualdades, falta de recursos, excesso de burocracia, violência, indisciplina e profissionais cada vez mais pressionados. Diante desse cenário, a última coisa que uma escola precisa é de uma liderança que aumente ainda mais o sofrimento daqueles que já estão cansados.
Precisamos de gestores que entendam que autoridade não é autoritarismo e que liderança não é poder sobre as pessoas. Liderar é assumir responsabilidade por pessoas. É saber ouvir, reconhecer erros, defender a equipe quando necessário, dialogar com o sistema e procurar soluções que respeitem a realidade de quem está diariamente dentro da escola.
Não podemos continuar fingindo que está tudo bem enquanto profissionais da educação adoecem em silêncio. Precisamos falar sobre isso com coragem, sem medo de reconhecer que parte do problema também pode estar dentro das próprias instituições. Se queremos uma educação melhor, precisamos começar cuidando daqueles que fazem a educação acontecer.
Depois de oito anos na gestão, eu aprendi que um gestor pode até deixar um cargo e seguir sua vida, mas aquilo que fez pelas pessoas permanece. Por isso, acredito que a pergunta mais importante que um gestor deve fazer ao final de sua trajetória não é quantos documentos assinou, quantas reuniões realizou ou quantas cobranças encaminhou. A pergunta deveria ser muito mais simples: “As pessoas que trabalharam comigo se sentiram respeitadas, ouvidas e protegidas?”
Porque, no final das contas, uma escola pode ter excelentes projetos, bons indicadores e muitos resultados, mas se estiver adoecendo as pessoas que nela trabalham, alguma coisa está profundamente errada.