quarta-feira, 1 de julho de 2026

 


A EDUCAÇÃO VAI MUITO ALÉM DA QUADRA: A SOLIDÃO DE QUEM CARREGA UMA EQUIPE NAS COSTAS

POR MARCELO BRAGA 


Participar da etapa estadual dos Jogos Escolares de Santa Catarina é o sonho de milhares de estudantes. Para muitos, é a oportunidade de vestir a camisa da escola, representar sua cidade e viver uma experiência que ficará para sempre na memória. Mas por trás das medalhas, dos troféus e dos resultados, existe uma realidade que pouca gente conhece.

Nesta semana, embarquei com dez meninos de 12 a 14 anos, da Escola Annes Gualberto, rumo a São Miguel do Oeste para disputar a etapa estadual dos Jogos Escolares de Santa Catarina no futsal.

Nossa viagem começou às 5h30 da manhã de segunda-feira. Foram aproximadamente quinze horas de estrada até chegarmos ao destino. Cansaço, ansiedade e expectativa misturavam-se em cada quilômetro percorrido.

Ao chegarmos, ainda havia o jantar, a organização dos materiais e o alojamento compartilhado com outras escolas. Centenas de adolescentes, meninos e meninas, dividindo o mesmo espaço, utilizando apenas dois chuveiros, poucos banheiros e dormindo no chão. Já estamos na terceira noite nessas condições.

Para quem observa de fora, pode parecer desconfortável. Para quem vive o esporte escolar, isso faz parte da missão.

Os meninos estão agitados. E como não estariam? São adolescentes vivendo uma experiência única, longe de casa, convivendo com jovens de todas as regiões de Santa Catarina, disputando diversas modalidades esportivas. A energia deles é enorme, e cabe ao professor transformar essa energia em disciplina, responsabilidade e aprendizado.

O que mais chama minha atenção, porém, é a diferença de estrutura entre as delegações.

Enquanto muitas escolas particulares chegam com dois ou até três profissionais acompanhando a equipe — treinador, auxiliar, preparador físico, coordenador —, em muitas escolas públicas a realidade é completamente diferente.

Estou sozinho.

E quando digo sozinho, é literalmente sozinho.

Sou o professor.

Sou o técnico.

Sou o preparador físico.

Sou o responsável pela alimentação.

Sou quem organiza os horários.

Sou quem resolve problemas.

Sou quem escuta quando bate a saudade de casa.

Sou quem orienta quando surgem conflitos.

Sou quem administra as emoções antes e depois dos jogos.

Sou, muitas vezes, médico improvisado diante de pequenos machucados.

Sou psicólogo quando a ansiedade aparece.

Sou pai quando é preciso aconselhar.

Sou mãe quando é preciso acolher.

E, acima de tudo, sou o responsável por trazer todos de volta em segurança.

A maior preocupação não é apenas vencer partidas.

É fazer com que tudo dê certo.

É garantir que nenhum aluno se machuque.

Que todos se alimentem.

Que todos descansem.

Que todos retornem para suas famílias exatamente como saíram.

Essa responsabilidade pesa.

E pesa muito.

Vivemos uma época em que muitos enxergam apenas o placar. Poucos conseguem enxergar tudo o que existe antes do apito inicial.

Também percebo algo que merece reflexão.

Em diversas delegações, principalmente de escolas particulares, o foco parece estar exclusivamente na vitória. A competição, em alguns momentos, assume um caráter de "tudo ou nada". É compreensível querer vencer. O esporte é competição.

Mas a escola nunca pode perder sua essência educativa.

Ganhar é importante.

Formar cidadãos é muito mais.

Ensinar respeito, disciplina, cooperação, amizade, humildade e superação continua sendo a maior vitória que um professor pode conquistar.

Chego à reta final da minha carreira profissional com a certeza de que ainda continuo aprendendo todos os dias.

Aprendo com meus acertos.

Aprendo, principalmente, com meus erros.

Cada viagem me transforma.

Cada aluno me ensina algo novo.

Cada competição reforça uma convicção que carrego há décadas: ser professor é muito maior do que ensinar conteúdos ou orientar treinamentos.

É assumir responsabilidades que nem sempre aparecem nas fotos, nos jornais ou nas redes sociais.

É cuidar de vidas.

É construir memórias.

É representar famílias que confiaram seus filhos às nossas mãos.

Talvez poucos entendam o que significa passar dias longe da própria família para cuidar da família dos outros.

Mas quem vive o magistério e o esporte escolar sabe.

No fim das contas, as medalhas envelhecem.

Os troféus ficam nas prateleiras.

Os resultados são esquecidos.

Mas o exemplo que deixamos na vida de um aluno permanece para sempre.

E essa, sem dúvida, continua sendo a maior conquista da minha carreira.

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