JOGOS ESCOLARES DE SANTA CATARINA: ENTRE A FORMAÇÃO EDUCACIONAL E O EXCESSO DE COMPETITIVIDADE
POR MARCELO BRAGA
Os Jogos Escolares de Santa Catarina, promovidos pela Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte) em parceria com as secretarias municipais de esporte e educação, sempre tiveram um papel importante na integração dos estudantes através do esporte. O objetivo principal dos JESC deveria ser a formação humana, educacional e social dos alunos, valorizando a participação, a convivência e o desenvolvimento integral dos jovens.
Ao longo dos anos, porém, os Jogos Escolares acabaram se afastando de sua verdadeira essência. Hoje, infelizmente, vemos uma realidade muito diferente daquela que deveria existir dentro do ambiente escolar. O esporte educacional passou a ser tratado, em muitos casos, como esporte de rendimento e alto desempenho.
A própria Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte) destaca que os Jogos Escolares são instrumentos de formação cidadã e integração social. Porém, na prática, muitos professores percebem que a competição exagerada vem tomando espaço da participação coletiva e do caráter pedagógico.
As categorias sub-14 e sub-17 vivem hoje uma realidade quase profissional. Escolas particulares oferecem bolsas para atletas, clubes utilizam competições escolares como vitrine e muitos estudantes já entram em quadra pressionados por resultados. Em modalidades como futebol de campo, futsal e voleibol, há atletas treinando como profissionais ainda dentro da educação básica.
Não se pode ignorar que o esporte de rendimento tem sua importância. Revelar talentos também faz parte do processo esportivo. O problema surge quando o aluno deixa de ser prioridade e o resultado passa a ser o centro de tudo.
Os professores de Educação Física precisam ser ouvidos pelas secretarias municipais de esporte e educação. Somos nós que estamos diariamente dentro das quadras, convivendo com os alunos, observando suas dificuldades, limitações emocionais, sociais e pedagógicas. Somos nós que conhecemos a realidade das escolas públicas e os desafios enfrentados no cotidiano escolar.
A Secretaria Municipal de Esportes de São Francisco do Sul precisa abrir espaço para ouvir os profissionais da área. Não é possível continuar organizando o esporte escolar sem diálogo com quem vive a realidade da escola diariamente.
A educação brasileira atravessa um momento extremamente difícil. Falta valorização profissional, estrutura adequada, investimento em materiais esportivos e melhores condições de trabalho para os professores. Mesmo assim, muitos profissionais continuam fazendo verdadeiros milagres para manter os alunos motivados e participando das atividades escolares.
Os Jogos Escolares deveriam ser uma extensão da sala de aula. O aluno deveria aprender sobre respeito, disciplina, convivência, superação e trabalho em equipe. O esporte escolar precisa ensinar cidadania antes de ensinar apenas a vencer.
Os regulamentos da Fundação Catarinense de Esporte (Fesporte) mostram claramente que os JESC são promovidos em parceria com escolas, municípios e órgãos educacionais. Entretanto, muitas vezes, o discurso pedagógico fica apenas no papel.
Precisamos modernizar os Jogos Escolares e abandonar modelos ultrapassados. Não podemos mais aceitar competições que priorizam somente medalhas, troféus e rankings. O foco precisa voltar para a inclusão, participação e desenvolvimento humano.
É claro que cada escola e cada professor possui o direito de decidir se participa ou não das competições. Mas o objetivo principal não pode ser apenas vencer. O verdadeiro sentido dos Jogos Escolares deveria ser oportunizar experiências educativas através do esporte.
A própria Fesporte reconhece que o esporte escolar deve fortalecer o convívio social, o desenvolvimento humano e a integração entre educação e esporte. Porém, é necessário transformar essas palavras em ações concretas.
Muitos estudantes acabam ficando excluídos porque apenas os melhores atletas são valorizados. Enquanto isso, alunos que mais precisam do esporte como ferramenta de inclusão acabam esquecidos.
O esporte escolar precisa voltar a ser educacional. Precisa valorizar a participação de todos e não somente dos talentos esportivos. O aluno não pode ser tratado apenas como atleta. Ele é, antes de tudo, estudante e cidadão.
Os Jogos Escolares de Santa Catarina possuem uma história grandiosa e importante para o estado. A mobilização é enorme e envolve milhares de estudantes todos os anos. Contudo, chegou o momento de refletirmos profundamente sobre os rumos do esporte escolar catarinense.
Ouvir os professores é essencial. Valorizar quem está na escola diariamente é fundamental. O esporte escolar precisa voltar a cumprir sua missão original: formar cidadãos, promover inclusão e transformar vidas através da educação e do esporte.





