sexta-feira, 11 de setembro de 2026

 


QUANDO SEU  FILHO  ERRAR , SEJA PAI/MÃE  E NÃO ADVOGADO(A)  DE DEFESA 

CRÔNICA PROFESSOR MARCELO BRAGA 

Existe uma cena que, infelizmente, tem se tornado cada vez mais comum dentro das escolas. O telefone toca. A família recebe uma notícia sobre o comportamento do filho. Em vez de ouvir, compreender e conversar, alguns pais chegam à escola armados de indignação. Não querem saber exatamente o que aconteceu. Não querem ouvir o professor. Não querem entender o contexto. Querem apenas defender o filho, custe o que custar.

E aqui precisamos fazer uma pergunta que pode incomodar muita gente: quando foi que educar passou a significar proteger os filhos de toda e qualquer consequência de seus próprios atos?

Há pais que acreditam que amar é nunca contrariar. Que proteger é justificar tudo. Que defender é colocar em dúvida a palavra do professor, da pedagoga, da direção e de qualquer adulto que tente estabelecer um limite. O filho chega em casa contando uma versão dos fatos e, imediatamente, aquela versão vira verdade absoluta. Não existe investigação. Não existe diálogo. Não existe sequer a possibilidade de o filho ter errado.

O problema é que a vida não funciona assim.

Na escola, o aluno precisa aprender que suas atitudes produzem consequências. Se desrespeitou um colega, precisa compreender o erro. Se ofendeu um professor, precisa responder pelo que fez. Se desobedeceu uma regra, precisa entender por que aquela regra existe. Se prejudicou alguém, precisa aprender a reparar o dano. Isso não é perseguição. Isso é educação.

Mas alguns responsáveis transformaram qualquer correção em uma ofensa pessoal contra o filho. Se o professor chama a atenção, dizem que o professor não gosta da criança. Se a escola aplica uma consequência, dizem que estão perseguindo o aluno. Se a direção estabelece um limite, procuram alguém para responsabilizar. E assim, pouco a pouco, retiram dos filhos a oportunidade mais importante da formação: aprender com os próprios erros.

É preciso dizer uma coisa que talvez muitos pais não queiram ouvir: se você sempre tirar seu filho das consequências, alguém terá que lidar com elas no futuro. E esse alguém poderá ser um chefe, um colega de trabalho, um parceiro, uma autoridade, um juiz, a própria sociedade ou a vida.

Porque o mundo lá fora não será tão paciente quanto a família. Ninguém poderá ligar para o chefe do filho adulto toda vez que ele cometer um erro. Ninguém poderá aparecer no trabalho para explicar por que ele não cumpriu uma responsabilidade. Ninguém poderá enfrentar todas as pessoas que discordarem dele. A vida cobra aquilo que a família deixou de ensinar.

E existe uma diferença enorme entre defender um filho e passar a mão na cabeça dele. Defender significa garantir que ele seja tratado com respeito, que seja ouvido e que não sofra uma injustiça. Passar a mão na cabeça significa negar o erro mesmo quando ele é evidente. Pais responsáveis não precisam concordar com tudo o que a escola diz, mas precisam ter maturidade para investigar antes de julgar.

Também é preciso respeitar o professor. O professor não está na escola para ser inimigo da família. Ele está ali para ensinar, orientar, corrigir e participar da formação daquele aluno. Quando um pai desautoriza constantemente o professor diante do filho, está ensinando uma lição perigosa: “se um adulto colocar limite em você, enfrente-o e procure alguém que o defenda.”

Depois, quando esse mesmo adolescente não respeita autoridade, não aceita um “não”, não suporta uma crítica, não reconhece um erro ou acredita que sempre tem razão, muitos se perguntam: “Onde foi que erramos?”

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que fizemos durante anos.

Filhos não precisam de pais que sejam seus advogados em todas as situações. Precisam de pais que tenham coragem de ser seus educadores. Precisam ouvir: “Eu amo você, mas você errou.” Precisam ouvir: “Vou conversar com a escola, mas primeiro quero entender o que aconteceu.” Precisam aprender que pedir desculpas não diminui ninguém. Que reconhecer um erro é sinal de maturidade. Que respeitar professores e funcionários faz parte da convivência em sociedade.

A escola também precisa fazer sua parte, é claro. Precisa ouvir as famílias, agir com justiça, respeitar os alunos e manter diálogo aberto. Mas parceria não significa submissão da escola aos desejos dos responsáveis. Família e escola precisam estar do mesmo lado: o lado da formação da criança e do adolescente.

Quando família e escola entram em uma disputa para descobrir quem está certo, muitas vezes quem perde é justamente aquele que deveria estar no centro de tudo: o aluno.

Pais, seus filhos não precisam que vocês os protejam de todas as dificuldades. Precisam que vocês os preparem para enfrentá-las.

Não tenham medo de dizer “não”. Não tenham medo de corrigir. Não tenham medo de estabelecer limites. Não tenham medo de admitir que seu filho pode ter errado.

Porque o maior ato de amor não é impedir que seu filho enfrente as consequências. É ensiná-lo a ter responsabilidade suficiente para enfrentá-las.

E talvez um dia ele agradeça por vocês não terem sido seus advogados.

Mas terem escolhido ser seus pais.

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