quinta-feira, 2 de abril de 2026

 


REFLEXÃO DO PROFESSOR 

Escola Cívico-Militar: Reflexões Sobre um Debate Necessário na Educação

A educação pública brasileira vive um momento de intensos debates sobre caminhos possíveis para melhorar a qualidade do ensino. Um desses debates envolve a implantação do modelo de escolas cívico-militares, tema que recentemente passou a ser discutido na Escola de Educação Básica Annes Gualberto, em São Francisco do Sul.

Sou professor efetivo da instituição há 33 anos e tive a oportunidade de atuar também como gestor escolar por oito anos. Ao longo desse tempo, acompanhei diversas mudanças educacionais, políticas públicas e transformações sociais que impactaram diretamente o cotidiano da escola.

No dia 30 de março, durante uma reunião com pais e responsáveis, a atual direção da escola apresentou uma consulta à comunidade sobre a possibilidade de implantação do modelo cívico-militar na unidade. A iniciativa gerou diferentes opiniões entre famílias, professores e membros da comunidade escolar.

Em Santa Catarina, o programa de escolas cívico-militares vem sendo ampliado pelo governo estadual nos últimos anos. Atualmente, diversas unidades já adotam esse modelo, que se caracteriza por uma gestão compartilhada entre profissionais da educação e militares da reserva.

Nesse formato, a gestão pedagógica permanece sob responsabilidade dos educadores, enquanto militares atuam principalmente em áreas relacionadas à organização, disciplina, apoio à gestão e desenvolvimento de atividades voltadas ao civismo.

Defensores do modelo afirmam que ele pode contribuir para melhorar o ambiente escolar, fortalecendo valores como respeito, responsabilidade e organização. Em algumas experiências no Brasil, também são citadas melhorias na convivência escolar e na redução de episódios de indisciplina.

Por outro lado, críticos do modelo apontam que a principal missão da escola é pedagógica e que o foco das políticas públicas deveria estar prioritariamente no fortalecimento da formação de professores, na melhoria da infraestrutura das escolas e no investimento direto no processo de ensino e aprendizagem.

O que são escolas cívico-militares?

Em Santa Catarina, o programa estadual de escolas cívico-militares foi criado em 2023 por decreto do governo estadual.

Atualmente, o estado possui cerca de 15 escolas nesse modelo, atendendo mais de 10 mil estudantes, e a previsão é chegar a 17 unidades até o final de 2025.

Nesse modelo, a escola passa a ter gestão compartilhada:

  • A gestão pedagógica continua com professores e direção escolar
  • Militares da reserva ou da ativa atuam na disciplina, organização e segurança

Segundo o governo, os militares atuam para reduzir violência, evasão escolar e indisciplina, promovendo valores como civismo, respeito e cooperação.


De onde vêm os recursos?

Uma questão que quase nunca aparece no debate é o custo do modelo.

As escolas cívico-militares recebem recursos do próprio Governo do Estado, que paga:

  • estrutura e adaptações da escola
  • pagamento dos militares que atuam na unidade
  • projetos ligados à segurança e disciplina

Ou seja: é dinheiro público da educação estadual.

Alguns levantamentos apontam que o investimento em escolas desse modelo pode ser maior do que nas escolas estaduais comuns, o que levanta outra pergunta importante:
por que não investir esse mesmo dinheiro diretamente em professores, infraestrutura, laboratórios e formação pedagógica?

Um debate que precisa ser feito :

O que me preocupa não é discutir a escola cívico-militar.

O que me preocupa é como esse debate é feito.

Será que os pais receberam todas as informações?

Será que sabem:

  • quem realmente decide a implantação?
  • quais mudanças ocorrerão no cotidiano da escola?
  • qual será o papel dos militares dentro da unidade?
  • quais os impactos pedagógicos de longo prazo?

Porque uma escola não muda apenas seu uniforme.

Ela muda sua identidade.

E a EEB Annes Gualberto tem uma história construída por professores, alunos e pela comunidade de São Francisco do Sul.

Esse debate também levanta uma reflexão importante sobre o papel da comunidade escolar nas decisões que impactam o futuro da instituição. A participação de pais, professores, estudantes e gestores é fundamental para que qualquer mudança ocorra de forma transparente e democrática.

Mais do que discutir modelos administrativos, a sociedade precisa refletir sobre quais estratégias realmente contribuem para melhorar indicadores de aprendizagem, reduzir desigualdades educacionais e preparar os estudantes para os desafios do mundo contemporâneo.

A educação é uma construção coletiva e exige diálogo permanente entre todos os envolvidos no processo educativo. Experiências diferentes podem oferecer aprendizados importantes, desde que avaliadas com responsabilidade, baseadas em dados e na realidade de cada comunidade escolar.

Independentemente do modelo adotado, é fundamental lembrar que a qualidade da educação depende de diversos fatores: valorização dos professores, gestão eficiente, participação da família, infraestrutura adequada e políticas públicas consistentes.

Nesse sentido, o debate sobre a implantação de uma escola cívico-militar na EEB Annes Gualberto pode ser uma oportunidade para ampliar a reflexão sobre o futuro da educação na comunidade.

Mais do que escolher entre modelos, talvez a pergunta mais importante seja: quais caminhos podem realmente garantir uma educação pública de qualidade para nossas crianças e jovens? 

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