REFLEXÃO DO PROFESSOR
Escola Cívico-Militar: Reflexões Sobre um Debate Necessário na Educação
A educação pública brasileira vive um momento de intensos debates sobre caminhos possíveis para melhorar a qualidade do ensino. Um desses debates envolve a implantação do modelo de escolas cívico-militares, tema que recentemente passou a ser discutido na Escola de Educação Básica Annes Gualberto, em São Francisco do Sul.
Sou professor efetivo da instituição há 33 anos e tive a oportunidade de atuar também como gestor escolar por oito anos. Ao longo desse tempo, acompanhei diversas mudanças educacionais, políticas públicas e transformações sociais que impactaram diretamente o cotidiano da escola.
No dia 30 de março, durante uma reunião com pais e responsáveis, a atual direção da escola apresentou uma consulta à comunidade sobre a possibilidade de implantação do modelo cívico-militar na unidade. A iniciativa gerou diferentes opiniões entre famílias, professores e membros da comunidade escolar.
Em Santa Catarina, o programa de escolas cívico-militares vem sendo ampliado pelo governo estadual nos últimos anos. Atualmente, diversas unidades já adotam esse modelo, que se caracteriza por uma gestão compartilhada entre profissionais da educação e militares da reserva.
Nesse formato, a gestão pedagógica permanece sob responsabilidade dos educadores, enquanto militares atuam principalmente em áreas relacionadas à organização, disciplina, apoio à gestão e desenvolvimento de atividades voltadas ao civismo.
Defensores do modelo afirmam que ele pode contribuir para melhorar o ambiente escolar, fortalecendo valores como respeito, responsabilidade e organização. Em algumas experiências no Brasil, também são citadas melhorias na convivência escolar e na redução de episódios de indisciplina.
Por outro lado, críticos do modelo apontam que a principal missão da escola é pedagógica e que o foco das políticas públicas deveria estar prioritariamente no fortalecimento da formação de professores, na melhoria da infraestrutura das escolas e no investimento direto no processo de ensino e aprendizagem.
O que são escolas cívico-militares?
Em Santa Catarina, o programa estadual de escolas cívico-militares foi criado em 2023 por decreto do governo estadual.
Atualmente, o estado possui cerca de 15 escolas nesse modelo, atendendo mais de 10 mil estudantes, e a previsão é chegar a 17 unidades até o final de 2025.
Nesse modelo, a escola passa a ter gestão compartilhada:
- A gestão pedagógica continua com professores e direção escolar
- Militares da reserva ou da ativa atuam na disciplina, organização e segurança
Segundo o governo, os militares atuam para reduzir violência, evasão escolar e indisciplina, promovendo valores como civismo, respeito e cooperação.
De onde vêm os recursos?
Uma questão que quase nunca aparece no debate é o custo do modelo.
As escolas cívico-militares recebem recursos do próprio Governo do Estado, que paga:
- estrutura e adaptações da escola
- pagamento dos militares que atuam na unidade
- projetos ligados à segurança e disciplina
Ou seja: é dinheiro público da educação estadual.
Alguns levantamentos apontam que o investimento em escolas desse modelo pode ser maior do que nas escolas estaduais comuns, o que levanta outra pergunta importante:
por que não investir esse mesmo dinheiro diretamente em professores, infraestrutura, laboratórios e formação pedagógica?
Um debate que precisa ser feito :
O que me preocupa não é discutir a escola cívico-militar.
O que me preocupa é como esse debate é feito.
Será que os pais receberam todas as informações?
Será que sabem:
- quem realmente decide a implantação?
- quais mudanças ocorrerão no cotidiano da escola?
- qual será o papel dos militares dentro da unidade?
- quais os impactos pedagógicos de longo prazo?
Porque uma escola não muda apenas seu uniforme.
Ela muda sua identidade.
E a EEB Annes Gualberto tem uma história construída por professores, alunos e pela comunidade de São Francisco do Sul.

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